TRANSREALISMO

19 octobre, 2007

UMA ARTE PARA O SÉC. XXI – MANIFESTO

Classé sous Non classé — sejovieiracom @ 17:01

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O Transrealismo é um movimento artístico e literário que procura exprimir em valores plásticos a criatividade da imaginação no processo de  reconstrução  de realidades paralelas.  Convicto de que, na memória, residem, como peças de um puzzle, todos os elementos indispensáveis à criação artística e ao conhecimento profundo do Homem, o artista transrealista elabora esquemas de representação das suas andanças pelos recantos do espírito, projectando-as através da pintura ou da literatura. Recorrendo a certos mecanismos da mente, como por exemplo o sonho ou ainda “o pensamento à deriva”, consegue forjar uma ferramenta capaz de vasculhar labirintos e abismos  à procura de imagens e sensações que o transportem para lá da realidade. Recusa a percepção imediata, a emoção instantânea, prefere aventurar-se do outro lado do  espelho, onde a razão sabe criar mundos com as sensações da vivência,  com os fragmentos  da memória.   Assim a criatividade transrealista inventa, reconstruindo-a, uma realidade que passará a existir apenas na tela, ou na voz do poeta. Utilizando na pintura uma linguagem figurativa de grande qualidade pictural é na encenação do tema, na ambiguidade e riqueza da discrição que o Transrealismo provoca a reflexão, instala o desassossego e a interrogação. Haverá sempre um convite explícito ao espectador para entrar no espaço inventado, e aí iniciar uma viagem que lhe exigirá uma leitura racional, intelectual, literária. Um quadro transrealista – figurativo por excelência -é um conto, um poema ditos pelos pincéis do artista. A pintura transrealista mais do que qualquer outra, sabe revelar a importância de uma das mais poderosas ferramentas da mente: a imaginação. Inspirando-se na realidade não para a reproduzir ou imitar mas sim para a transfigurar, transformando-a numa outra realidade, a que poderemos chamar vivência interior, o artista transrealista instala-se num espaço-tempo ao qual,  ele só  terá acesso, e aí, recria meticulosamente, pincelada após pincelada, uma vida pictórica, complexa, estranha, lógica e por vezes absurda. A tela impõe-se a quem a olha  e sussurra uma primeira mensagem: “Interpreta-me”. Depois é o salto no desconhecido, o intelecto  aceita o desafio, o raciocínio do espectador penetra a alma do artista. É o estado de graça, o milagre da criatividade partilhada. 

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No Transrealismo poderemos descobrir as vias capazes  de materializar o Pensamento, tornando-o consistente, visível. Sem passar por atalhos, acedemos aos mundos vivificantes e eternos do imaginário, conseguimos pressentir tantos lugares secretos, tantos e tantos horizontes por atingir. O Transrealismo possui uma força oculta que não se  encontra em nenhuma outra corrente artística. Uma força que ajuda a desvendar os mistérios da alma, a deslindar os acasos da vida, a lutar contra a absurdez do quotidiano, contra a irracionalidade do homem. Nenhuma outra pintura poderia tornar tão poética, tão humana a procura do Absoluto, a crença num ideal. A arte transrealista  desconhece as imposturas  com que a mediocridade maquilha as faces da criatividade. Ela obriga o artista  a imunizar-se contra a facilidade, contra  a desonestidade, permite alcançar o inacessível, materializar o incorpóreo, definir continuamente o sentido das coisas, afirmar convicções, elaborar novos esquemas para o pensamento, abrir sendeiros na floresta das certezas. Alimenta-nos de sonhos, de visões, de símbolos, de ideias em liberdade, diz-nos para correr atrás da Verdade. Nenhuma outra pintura nos conduziria tão sorrateiramente  através dos labirintos da tela, fazendo de nós uma nova Alice no país das maravilhas. Que nos diz ainda o  Transrealismo? Que excluamos da criação tudo o que tenha a ver com ganância, narcisismo, glória, honrarias e outros artifícios alienantes para o espírito.  Criar, obedecerá apenas a uma vontade obsessiva, querer deambular pelas terras do Imaginário, de existir no mundo do Absoluto, de visitar os inúmeros universos não visíveis que o pensamento, vai, aos poucos, descobrindo, definindo. Pintar, consiste pois, em poder utilizar, respeitosamente, humildemente, a tela, essa matéria carnal, esse lugar privilegiado, esse espaço palpável perfeitamente dimensionado. A tela é o sudário no qual repousará para sempre a alma do pintor.   Então, como enfrentá-la? Só em estreita comunhão com o espírito, nessas horas em que a inspiração nos visita e o coração se sente forte e paciente. 

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A verdadeira pintura será sempre um acto ritual.  Toda a riqueza da universalidade humana torna-se autêntica e toma na tela o aspecto colorido, desmedido, estruturado da alma. Pintamos para dialogar não só com nós próprios mas também com o olhar daquele que nos visita. Pintamos para que esse outrem aceda sem dificuldades à plataforma de onde levantam voo os nossos sonhos, os nossos pesadelos, os nossos desejos e as nossas obsessões. Que grande responsabilidade a do artista para com aquele que o descobre. Ai de nós se o enganámos, se o desprezámos, se o deixámos partir com o espírito vazio. O Transrealismo recorda-nos que  a Arte nunca poderá ser neutra, nem deve enclausurar-se em redomas de vidros.  Recusando ostensivamente as ideologias e as doutrinas ela existe no seio das sociedades para testemunhar o seu tempo, abrir caminhos, possibilitar transformações, levar  o homem a transcender a sua condição de hominídeo pretensiosamente sapiente. O Transrealismo nasce de uma urgência: redefinir  no contexto da chamada civilização ocidental os valores culturais da nossa época. É pois um movimento de ruptura, de critica social, de contestação cultural. Procurando referências na longa história do imaginário figurativo, o Transrealismo propõe-se travar um combate contra as aberrações do espírito humano.  A Cultura Transrealista (pintura, escultura, arquitectura, literatura, fotografia, cinema, teatro) tornar-se-á, neste princípio do século, o veículo de uma reacção radical, denunciando as guerras e os genocídios, a destruição do planeta, combatendo  a fome e a exclusão social, a tirania, o obscurantismo e todos os horrores que a sociedade persiste em  engendrar. 

Sejo Vieira

Iº SALÃO INTERNACIONAL DE ARTES PLÁSTICAS PELOS DIREITOS HUMANOS

Pintura    Escultura   Arquitectura    Fotografia    Arte    Digital    Cinema

Outubro 2008   Sever do Vouga   Distrito de Aveiro   Contacto:  sejovieira@yhoo.fr

18 mars, 2008

NOVIDADES SOBRE O TRANSREALISMO

Classé sous Non classé — sejovieiracom @ 20:44

      Opiniões : Novidades sobre o Transrealismo (in  Cent Papiers et AgoraVox) 

  • le 28 octobre 2007 |    Par Jean Yves Robert  in AgoraVox e Cent Papiers

 O mistério Sejo Vieira  Uma coincidência invulgar. Se eu não tivesse estado em Portugal o ano passado, não estaria aora a escrever este artigo. O Manifesto Transrealista do Sejo Vieira que eu li  no AgoraVox, ter-me-ia, certamente interessado, mas como tantas coisas interessantes que lemos, acabaria por esquecê-lo.     

Ao lê-lo, lembrei-me do sítio  onde pela primeira vez ouvi falar deste pintor. Foi neste mês de Agosto, atravessava  Portugal, indo de Salamanca. Parei para almoçar numa das vilas do distrito de Aveiro, a uns trinta quilómetros da costa, Uma vila encantadora no meio de colinas, cheia de eucaliptos e pinheiros. Nesse dia, havia uma festa, una feira internacional dedicada às actividades industriais e comerciais da região. Uma centena de stands, os divertimentos habituais neste tipo de festas.

Enquanto que os meus filhos se divertiam fui dar uma vista de olhos no complexo desportivo. No stand da Câmara Municipal, um grande cartaz chamou-me a atenção. Era a foto de duas mãos gigantescas (40 metros de altura) coladas uma à outra , saindo da terra de uma colina, onde aparentemente só haveria penhascos e vegetação rasteira.Tratava-se do Projecto Memorial dos Mártires da Liberdade. O autor era um pintor Sejo Vieira. Li o texto do projecto e quis saber mais. Um dos responsáveis do stand avisou-me que algumas obras do  pintor estavam expostas no hall principal. Fui até lá. Havia muita gente diante de uma dezena de quadros de grandes dimensões, porém o artista estava ausenteUm ano passou-se. O manifesto deste artista e os comentários que ele suscitou, levaram-me a escrever sobre este pintor. É que não se passa diante de um dos seus quadros sem que nos sentamos obrigados a parar e a reflectir sobre o que vemos. Há em cada obra uma mistura de insólito e de beleza. Imediatamente sentimos o desejo de penetrar no quadro e de percorrê-lo duma ponta à outra. É um mundo, que ao se abrir ao olhar atento do espectador, convida-o a fazer parte dele.  Sejo Vieira chama a isso o apelo do Transrealismo. Um termo que ganha todo o seu significado quando contemplamos as paisagens e as personagens das suas obras, e que neles descobrimos a visão de outros mundos. Seguimos com curiosidade, ao ler o seu Manifesto, essa procura obstinada de outras realidades possíveis, partindo da realidade perceptível. Vem-nos o desejo de repensar toda a pintura que se refere ao mundo psíquico, comparando-a às novas vias que o Transrealismo traça aos pintores do imaginário. Os mecanismos do sonho e também o que ele nomeia « o pensamento à deriva » são utilizados não para compreender a realidade quotidiana e ainda menos as realidade futuras, mas para conduzir a uma realidade transfigurada, transformada. Aqui, não há “cadáver requintado” mas um trabalho solitário onde, ajudado pela fabulosa ferramenta cerebral que é a imaginação, apoiando-se no incomensurável registo de imagens e de sensações guardadas na memória, toda a complexidade do trabalho cerebral durante o sonho, vai tornar-se a porta aberta à criação de outras realidades, de outros mundos, de outros conceitos de pensamento. “Assim a criatividade transrealista inventa, reconstituindo-a, uma realidade que só existirá na tela ou na voz do poeta”. 

O artista torna-se realmente um demiurgo na sua arte. Uma das suas  regras de ouro:” A pintura Transrealista só poderá ser figurativa. Forma e cor estão totalmente associadas na encenação do tema, na ambiguidade e riqueza da descrição…” , para levar o Transrealismo a provocar a reflexão, instalar o desassossego e a interrogação”. Contrariamente ao que se passa no Surrealismo que reunia debaixo da mesma etiqueta pintura tão diferente como a de um Miro, Picasso, Magritte, Dali,  e até abstractos, no Transrealismo só uma figuração próxima do realismo será aceite. Excluídos impressionistas, expressionistas, cuja pintura, segundo ele, não traduz a realidade. O artista transrealista “…recusa a percepção imediata, a emoção instantânea, preferindo aventurar-se do outro lado do espelho, lá, onde a razão sabe criar mundos com as sensações da vivência, os fragmentos da memória. “ Existe uma grande preocupação com a ética na obra de Sejo Vieira. Regras? Sobretudo  linhas  de  conduta. « Não se poderá conciliar o acto de criar com ganância, narcisismo, vaidade, corrupção,  condecorações e outros artifícios alienantes para o espírito”, e ainda: ”O artista tem responsabilidades para com quem o procura! Ai de nós se o enganamos, se o desprezarmos, se o deixarmos ir-se embora com o espírito vazio!” Sejo Vieira é o oposto de um Dali. Nele a Arte é o combate pelo homem, pela sua dignidade. Em Dali é a procura do interesse, do prestígio, da imortalidade simplória, infantil.” Aos olhos de Sejo a obra artística, literária vem depois do homem. Não é a obra que é importante, por mais genial que ela seja, mas a postura moral, o valor humano. A Arte nunca será neutra, e deverá implicar-se no combate pela transformação da pessoa. “O Transrealismo possui uma força escondida que não se encontra em nenhuma outra corrente artística. Uma força que ajuda a desnudar os mistérios da alma, a captar os imprevistos da vida, a combater a absurdez  do quotidiano., a irracionalidade do homem.” Esta força escondida seria a Mensagem. Na Arte deverá existir sempre o imperativo “Humano”. E os homens precisam da Mensagem para poderem transformar a sua vida, o seu quotidiano. Com o Transrealismo, trata-se de provocar no espectador um processo mental que o faça reflectir nas situações apresentadas, e isso com o fim de levá-lo a partilhar as preocupações e desafios do artista. É a Arte na redenção espiritual. “Nenhum outra pintura poderia tornar tão poética, tão humana a procura do Absoluto, a crença num ideal.” Eis, em poucas linhas o que seria o grande objectivo desta arte: atingir o absoluto, permanecendo fiel a um ideal. Ele exprime no seu Manifesto uma crença total no homem e nas suas capacidades de se transformar para poder participar na transformação do mundo. A Arte Transrealista seria uma das vias conduzindo a uma mudança mental e existencial universalista. Post Scriptum: Obras de Sejo Vieira em Humanutopie http://globumain.unblog.fr 

  Comentário ao artigo de Daniel Bédard   Ao ler-te  Jean-Yves sentimos o desejo de penetrar efectivamente o universo de Sejo Vieira. Muito Bem! P.S. Onde se pode ver as suas obras actualmente?   

        Jean Yves Robert  Bom dia Daniel. Fico contente que este artigo te  tenha dado vontade de conhecer as obras de Sejo Vieira. Por agora procuro o seu contacto. Sei que ele está em Portugal por causa do seu projecto O Memorial dos Mártires da Liberdade e que ele possui um atelier no Porto. Ele passa bastante tempo, também em Lisboa. A sua última exposição em França, teve lugar em Ormesson, nos arredores de Paris, onde a municipalidade lhe consagrou uma retrospectiva da sua obra. Pode-se aceder ao seu blog em http://globumain.unblog.fr. Sei que ele é francês de origem portuguesa e que conheceu muito bem Sérgio Poliakoff  em cujo atelier trabalhou por vezes. Frequentou também a Akademia de Robert Duncan, rua de Seine, em Paris. Logo que tiver mais informações entrarei em contacto contigo. Atenciosamente Jean Yves Robert  30 Outubro 2007           

27 novembre, 2007

AS NEUROCIÊNCIAS E O TRANSREALISMO

Classé sous Non classé — sejovieiracom @ 17:16

 Par Sejo Vieira in Cent Papiers

 O que é que uma arte, a pintura, e um movimento artístico, o Transrealismo podem oferecer como contributo em conhecimentos às neurociências ?

Numa conversa recente sobre a arte Transrealista, não só na pintura e na literatura mas em outras áreas como por exemplo a arquitectura ou o cinema, assinalámos a sua importância e actualidade à luz das últimas propostas destas ciências. O artista plástico Transrealista, concentrado no gesto de pintar, absorve, e, em seguida, integra as imagens, que lhe afluem desordenadamente ao espírito, vindas de todo o espaço da memória, e que passam a fazer parte daquilo a que chamaremos o « pensamento à deriva ».

Accionada pela memória, esta actividade da mente, não circunscrita à realidade do momento, alimenta-se da imensa base de imagens que guardamos nessa espécie de extraordinário disco neurofisiológico que se chama cérebro, e isso desde os primórdios da visão mental, quando, ainda criança, iniciámos a compreensão do que os cinco sentidos nos oferecem no nosso dia a dia.  As imagens esvoaçam literalmente num espaço impreciso da mente, sempre dentro do campo de visão interior, algumas fixando-se durante mais tempo que outras. Podemos apropriar-me delas durante segundos, saboreá-las à vontade, introduzindo-as no que estamos a pintar, antes que elas se esfumem, desapareçam no abismo da mente.

Memória e imaginação são as duas ferramentas por excelência do criativo.

Tudo no espírito é uma questão de imagens trazidas a cada instante do fundo da memória, e postas à disposição da imaginação. Esta ginástica mental, a recuperação de imagens, podemos utilizá-la também, ao adormecer e ao despertar. O cérebro, nesses instantes é um terreno fértil em imagens à deriva. Nesse meio sono, com a mente a funcionar numa espécie de entorpecimento, o espírito concentra-se mais facilmente. A imaginação liberta-se, as imagens misturam-se, o real confunde-se com o imaginado.

Quem está atento aos mecanismos do sono, ou quem os investiga cientificamente, conhece a sua importância na harmonização dos equilíbrios fisiológicos do corpo. O sonho, em contrapartida, não passa de mera actividade expontânea, provocada pelas imagens à deriva, presentes na memória, não constituindo uma necessidade fisiológica para o organismo. O sonho não é nada mais do que um prolongamento persistente, durante o sono, do fluxo de imagens que a memória guarda. Sem esta o sonho não existiria.Ora a nossa capacidade de transpor as barreiras da realidade é tão grande que podemos provocar os nossos próprios sonhos. Basta que nos concentremos exclusivamente em certas imagens e pensamentos, antes de adormecer. Começa então uma excitante viagem a través de territórios imprevisíveis, de situações que não imaginaríamos fora do sonho. São esses mundos que o artista transrealista tenta evocar nas suas telas. Nesses mundos, nascidos do outro lado de uma realidade transfigurada, nascerão certas respostas aos nossos caos civilizacionais, às nossas angústias existenciais, às nossas razões de se e de viver.

É nos intervalos em que o sono é menos opaco, menos profundo, que o sonho toma forma. Mas a sua consistência e presença dependerão sempre dos estados do sono. Um sonho pode durar um segundo e contudo constituir um número elevado de imagens e de sequências. Durante o sono, pode surgir períodos de agitação, causados por variados factores: cansaço mental, distúrbios psíquicos ou somáticos, problemas afectivos, recordações traumáticas, distúrbios fisiológicos. São minutos, por vezes horas, de total desarticulação do sono, em que nos tornamos vulneráveis aos pesadelos, às insónias e às obsessões. Estas últimas constituem uma das piores anomalias do sono. Contrariamente ao pesadelo que nos acorda bruscamente, a obsessão retém-nos prisioneiros dentro de uma sonolência que nos impede de lutar contra a sua persistência. As imagens que afluem, repetem-se indefinidamente, invadem o sonho e apoderam-se dele.

Todas as interpretações fantasistas atribuídas aos sonhos através dos tempos, sempre foram o fruto da falta de conhecimentos científicos. Freud, com a sua interpretação dos sonhos em 1900, estava longe de imaginar que todos os progressos levados a cabo desde há umas décadas para cá, pelos investigadores das neurociências, deitariam por terra as suas teorias.

Simples actividade mental, dependente da memória, o sonho, continua, contudo, a ser em pleno século XXI, alvo das mais aberrantes conclusões. Entre premonições, adivinhações e pseudo-estudos científicos, a explicação do sonho nunca deixará de ser uma porta aberta a todas as charlatanices

O artista Transrealista, aborda o mundo dos sonhos como um descobridor de terras desconhecidas e no entanto sabe que cada sequência de imagens que recebe no seu campo de visão interior é uma história que só pode ser vivida durante o sonhar. Quando despertamos, temos uma ténue recordação do que sonhámos. Mesmo aquele sonho abortado por um despertar súbito não deixa rastos, sobretudo imediatos. Porém, tudo o que é visionado pela mente, mesmo o que é sonhado, poderá ficar guardado para sempre, na memória, e em qualquer momento vir à superfície.

Para obtermos algumas explicações sobre o que sonhámos, é necessário disciplinarmos o acordar repentino, e fazer o que muitos artistas do imaginário fazem, concentramo-nos imediatamente nas imagens que ainda pertencem ao sonho, e sobretudo tentar ordená-las. Podemos até anotar o que conseguimos recordar.

Descobriremos então que essas situações que vivemos ao longo do sonho são apenas prolongamentos ou representações de vivências recentes ou antigas E que estamos sempre presentes nelas, quer seja como protagonistas, figurantes ou espectadores. Contudo haverá situações provocadas por imagens perdidas, sem qualquer correspondência com situações vividas na realidade acordada, algumas delas, aliás, tendo pertencido a sonhos antigos.

O que nos espanta nessas situações é o resultado da cooperação entre a memória e a imaginação. São situações que parecem nascer do nada; abarrotam de imagens e ideias, invulgares, extraordinárias, verdadeiras criações do espírito. Prova de que a mente humana basta-se a ela própria sem necessidade de recorrer a drogas ou outras lobotomias do cérebro para aceder a mundos de excepção.

Uma das constatações a que chegamos ao traduzir as impressões deixadas pelo sonho, é que o seu conteúdo obedece a uma lógica inatacável. Enquanto decorre, parece real, possível, trivial, habitual. Mesmo o voar! Quem não sonhou que voou, em pleno céu, pelo único poder dos seus membros, braços e pernas? Sobrevoámos casas, bosques, elevámo-nos ao longo de prédios altíssimos, escapámos a perigos, olhámos para baixo para os outros, que não voavam, tudo isso com o à-vontade e a fé do sonhador. Chegámos ao ponto de prometermos a nós próprios, que, uma vez acordados, recomeçaríamos a façanha, de tal modo ela nos parecia fácil, real. Vejam: é tudo uma questão de técnica, este movimento amplo de abrir os braços, de dar balanço com as pernas, de entesar os músculos do dorso! Que decepção ao despertarmos!

É isso o sonho! Uma criação etérea do espírito, um aventurar-se em territórios, que a mente sabe criar graças à complexidade de seus componentes eléctroquímicos. Um caudal de imagens vividas em situações, cuja recordação nos deixam, a maior parte das vezes, um gosto amargo.

Se analisarmos bem o desenrolar de uma situação sonhada, verificamos que os factos se sucedem, num tempo e num espaço físico que possui a sua própria lógica, e eles não podem ser senão o fruto ocasional de uma combinação de ideias e imagens, durante o sono, quando mente não controla a sua realidade interior.

É pois toda o universo do sonho com a sua vida singular, o seu desenrolar consequente, que caracteriza o Transrealismo. Esta intrusão do outro lado da realidade, faz de nós uma « Alice no país das maravilhas », lá, onde, graças ao poder da imaginação, mas em plena consciência da realidade interior, nós criamos um mundo bicéfalo, real e irreal, lógico e ilógico, um mundo transrealista.

Penetra-se num quadro transrealista, como se vive um sonho, com o mesmo desejo de compreender, de se extasiar, de deambular, de viver algo que se situa para lá do real, do exacto, do conhecido

Continua-se a acreditar que na interpretação dos sonhos, se pode encontrar soluções para a cura de patologias do comportamento, prever o futuro ou explicar o passado.

A explicação do sonho só pode conduzir a uma constatação: não tem nada de transcendente, de espiritual, ou de religioso. E está longe de representar para o corpo humano uma necessidade fisiológica. Soluções para a cura de patologias neuropsíquicas, poderemos encontrá-las talvez, em certas actividades do espírito, a arte, a cultura, a aquisição de conhecimentos.

A criação artística pode funcionar como uma barreira contra as agressões do meio em que vivemos, profissionais, familiares, sociais, contra traumas afectivos, angústia e stress, e mesmo na reconstituição de equilíbrios mentais à deriva. Se olharmos com atenção um quadro transrealista, notaremos o cuidado com o artista descreve uma realidade inventada e ao percorremos os diversos caminhos da obra, sentimos um apelo que vem de dento do quadro, de algo que está lá, escondido, mas à espera de ser compreendido, captado. É um convite para penetrarmos num mundo, que cada um de nós pode criar, e onde podemos percorrer à vontade, os caminhos que nos conduzirão à nossa espiritualidade.

No extremo limite dos nossos conflitos interiores, dos nossos desesperos quotidianos, necessitamos de encontrar refúgios mentais, plataformas de onde poderão, de novo, levantar voo os nossos desejos mais secretos.Saber, nos momentos de grande urgência abrir as portas de um mundo por nós inventado, é talvez um meio de escaparmos ao inferno de nós mesmos.

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